Empresários avaliam que 5G entrará na conta da China na briga por vacinas

Empresários avaliam que 5G entrará na conta da China na briga por vacinas

Carla Araújo

Enquanto diplomatas tentam reverter o imbróglio com a China para a liberação das vacinas, o empresariado brasileiro acredita que a situação deve ter reflexos em outras negociações entre os dois países, como a participação da empresa Huawei Technologies no leilão de tecnologia 5G, que deve acontecer neste ano.

“Não estamos dizendo que eles têm o melhor produto, estamos falando que se trata de uma economia de mercado e que espera-se que a China tenha o direito de participar”, disse o CEO do Lide China, José Ricardo dos Santos Luz Junior.

A avaliação feita por empresários acostumados em uma rotina de negociação com os asiáticos é de que a China colocou o Brasil “de castigo”, ou no “canto do pensamento”, ao atrasar a entrega das vacinas. A ideia seria sensibilizar o governo brasileiro de que declarações extremistas e agressivas contra os chineses podem ter consequências graves para as duas economias.

A expectativa do empresariado brasileiro é que, assim como o presidente Jair Bolsonaro está tendo que ajustar o discurso em relação às vacinas, o mesmo terá que acontecer na postura do 5G.

Os principais críticos da tecnologia chinesa no governo costumam fazer acusações de espionagem, mesmo sem provas. Empresários salientam que a empresa chinesa já está no Brasil há mais de 20 anos e oferece as principais ferramentas para as operadoras de telecomunicação. Sendo assim, caso a chinesa fosse de fato excluída do leilão, haverá um período maior de adaptação da tecnologia 5G, que necessariamente aumentará o custo ofertado ao consumidor brasileiro.

Mourão como porta-voz

O CEO do Lide China afirmou que acredita que o vice-presidente, Hamilton Mourão, seria o porta-voz mais indicado tanto nas tratativas com a vacina, como com o 5G.

“Mourão tem o canal adequado, já que preside a Cosban (Comissão Sino-Brasileira de Alto Nível de Concertação e Cooperação) e sempre tentou corrigir os ponteiros nas negociações. É um apaziguador”, disse Luz.

À coluna, Mourão, que sempre se colocou contra a posição antichina de Bolsonaro e da ala ideológica, disse apenas que até o momento as negociações “continuam a cargo do MRE”.

A postura de Mourão com declarações que contradizem o presidente costuma irritar Bolsonaro. Nesta quarta-feira (20), por exemplo, após ter sido alvo de reclamações na conduta da comunicação, o Ministério das Comunicações divulgou uma nota afirmando que “o governo Federal é o único interlocutor oficial com o governo chinês”.

Chama a Tereza

Se Bolsonaro não abriu ainda espaço para Mourão, as negociações contam com a participação da ministra da Agricultura, Tereza Cristina, e dos ministros Eduardo Pazuello (Saúde) e Fabio Faria (Comunicações).

Na nota divulgada nesta quarta, o governo brasileiro informou que o Ministério das Relações Exteriores, por meio da embaixada do Brasil em Pequim, tem mantido negociações com o Governo da China e que outros ministros do Governo Federal têm conversado com o Embaixador Yang Wanming.

“No dia de hoje (20), foi realizada com o Embaixador, uma conferência telefônica com participação dos ministros da Saúde, da Agricultura e das Comunicações”, afirmou o governo.

Para o CEO do Lide ChinaTereza Cristina tem um papel fundamental nas articulações já que a pauta comercial entre os dois países é basicamente de commodities. “Nós temos quatro pilares de exportação: minério de ferro, soja, petróleo e celulose, que possuem um peso muito grande. Tereza é habilidosa, fala mais do que escuta”, disse.

Um episódio lembrado por empresários para destacar a habilidade de Tereza Cristina é quando ela esteve na China em maio de 2019, reforçando que o momento era de construir pontes.

Na época, havia um desgaste muito grande com as declarações públicas do então ministro da Educação, Abraham Weintraub, que ironizou o sotaque chinês usando quadrinhos da Turma da Mônica e acusava a China de esconder informações sobre o coronavírus.

Parceria global é maior que ideologia

A despeito dos recentes impasses com o governo Bolsonaro e com a pauta ideológica do governo brasileiro, empresários afirmam que a relação entre os dois países é “profícua”, ou seja, vantajosa para os dois lados. Além disso, ressaltam que há uma longa trajetória de negociações entre os dois países.

Desde a década de 1990 o Brasil já considerado pelos chineses como parceiro estratégico. No governo da então presidente Dilma Rousseff (2011-2016) a China começou a tratar o Brasil como parceiro estratégico global.

“A China não vê o Brasil a partir de um mandato de quatro anos. A China vê o Brasil como parceiro estratégico de longo prazo”, diz Luz Filho.

Apesar de o Lide ser originalmente ligado ao governador de São Paulo, João Doria, o CEO do Lide China diz que há uma postura de total independência em relação ao tucano. Doria é tido hoje como um dos principais adversários de Bolsonaro na eleição de 2022 e arrematou recentes vitórias em relação ao presidente com o início da vacinação no Brasil.

Para a entidade, que, desde 2013, reúne 1.700 empresas que fazem negócios com os chineses, segundo o CEO, o interesse é que a pauta comercial supere a agenda política do momento.

Nos últimos anos, a balança comercial entre os dois países ficou na casa dos R$ 100 bilhões. Mesmo em 2020, com a pandemia e retração econômica, o patamar foi mantido.

“Brigas, palavras e ofensas ficam gravadas e não ajudam. Por isso, acho que é a hora do Brasil tratar melhor seu principal parceiro, independente da ideologia. E isso inevitavelmente passará pela permissão de que eles estejam no leilão de 5G”, diz.

Fonte: Uol 

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