Dignidade e liberdade de ir e vir em tempos de coronavírus

02/04/2020

Dignidade e liberdade de ir e vir em tempos de coronavírus

Perdi minha mãe para o câncer, anos atrás. Morreu em casa, comigo e com minha irmã ao lado, e essa experiência marcou consideravelmente minha história, reforçando todo o conjunto de crenças que eu já carregava e demonstrando o valor do “detalhe” em nossas vidas.

Tudo isso a começar pelos dois grandes médicos que procuramos. O primeiro, sentenciando o fim como irreversível e afirmando que nada havia para se fazer. O segundo, com sentença idêntica, demonstrando que havia muito, ainda, a ser feito.

Ficamos com o segundo. Se o fim era inevitável, pelo menos absorveríamos as lições de um grande ser humano e profissional dedicado a nos passar – e a todos seus pacientes – algo que transcende o conceito de cura. O resultado de tal escolha é que até hoje, quando pessoas fazem ar de consternadas quando falo da perda para o câncer, eu sorrio e digo: pelo menos tive muito tempo para dar amor e me despedir. Aprendi nessa primeira lição como dar valor ao que te é importante na vida, e como essa percepção molda tua ambição de felicidade.

Indo além, e como já dito, minha mãe morreu em casa, ao lado da família. Nosso pensamento era uníssono: se o fim era inevitável (como o é para todos nós), que a estrada fosse a menos dolorosa possível. Aqui, como segunda lição, resta o entendimento de que estamos neste mundo para que a dignidade supere o desespero.

Por fim, exatamente no momento de sua passagem, eu estava no quarto, mas olhando para algum outro lugar – não lembro nem para onde, nem o motivo (Freud explica). A terceira lição, portanto, me ensinou a jamais tirar os olhos do que realmente importa (obs: este é o único momento de toda minha existência que gostaria de ver reescrito).

Também me ensinou, calando na alma, que basta um pequeno descuido para que se perca um universo de outras possibilidades.

Com todas essas lições é que, sem nenhuma pretensão de conhecimento médico, escrevo essas linhas em tempos do novo coronavírus (covid-19 é um tanto quanto petulante).

Já entendi a importância da quarentena, e ouso dizer que instauramos trabalho remoto em meu escritório antes de qualquer exemplo idêntico na iniciativa privada. O último dia trabalhado presencialmente foi 13 de março.

Estou, portanto, ao lado daqueles que diminuíram radicalmente a circulação social de si, da família e dependentes indiretos (funcionários, colegas, etc).

Mas, perto dos 50 anos, após ter observado a guerra fria, o Muro de Berlim, o medo da hecatombe nuclear em uma guerra contra a extinta União Soviética e demais exemplos de autoritarismo, realmente não consigo entender o quão fácil continua sendo jogar o direito de ir e vir, em sentido lato, pela janela.

Governadores e prefeitos civis, eleitos pelo voto democrático, restringindo liberdades básicas em graus inimagináveis – em nome do bem comum.

Remoem, em seus íntimos (e não tão íntimos) pensamentos, que fazem o bem, que são os heróis da nação, que essas medidas são necessárias na medida em que um doente afeta toda a sociedade – questão de saúde pública, eis que não há leitos e respiradores para todos -, motivo pelo qual a intervenção pública totalitária (regulando a totalidade do que pode, ou não, funcionar) está justificada.

Invadem empresas para apropriação de material médico que o próprio Estado já deveria ter produzido ao longo de sua história. Pensam em “estatizarem” os leitos privados de hospitais, já que, mais uma vez, a administração pública está em déficit quanto ao que, dela, poderia realmente se esperar. E, melhor, já buscam pareceres jurídicos que os isentam do dever de reparação na medida em que tais ações são fruto de “força maior”.

Essa realidade muito me incomoda, pois trata o brasileiro como se fosse um cidadão com hipossuficiência mental, alguém que, sem a babá ao seu lado, não saberá decidir se é melhor morrer de vírus, de fome, de bala ou de “morte morrida pela vida”.

Se o fim é inevitável, a pergunta que primeiro aprendi com a doença de minha mãe, aqui se aplica: o que importante na vida? Para mim, o importante é que todo e qualquer cidadão possa definir a sua resposta em acordo com as suas circunstâncias (jamais pelas circunstâncias do vizinho), e viver a vida que lhe cabe. Se sair, morre de corona; se ficar, morre de fome. Se sair, morre de corona; se ficar, toma cerveja na beira da piscina até a crise passar, postando seu exemplo cívico em todas as redes sociais. São realidades quase opostas, e as respostas, por óbvio, também o serão.

A segunda lição que aprendi com história que contei no início deste artigo também incide sobre nosso panorama atual: a dignidade deve superar o sofrimento. Assim o foi, marcadamente, na segunda guerra mundial, onde “nunca tão poucos deveram a tantos”. Assim o é, agora, onde um pai de família não pode ser obstado em tentar o sustento de seu filho. Dignidade importa, pois é o que dá sentido à existência. Sem ela, somos apenas animais que sabem limpar as próprias fezes.

Por fim, a terceira e mais dolorosa lição que aprendi aqui também se faz presente: se podemos perder um universo com apenas um movimento, não é hora de esquecermos o debate “vidas X economia” que polarizou a mídia e as redes sociais, e falarmos de liberdade em si (sem a qual nem a vida, nem a economia, importam)?

Não é hora de evitarmos movimentos que coloquem em xeque a essência de nosso existir, pessoal e social, seja qual for o custo desta opção?

Volto a destacar que sou adepto da quarentena, pois até o momento tive condições de arcar com isso – sem demissões, sem negociações, sem riscos desnecessários. Entendi e defendo o isolamento social como necessário ao momento. Mas defendo, acima de tudo, que para aqueles que assim não podem obrar, seja-lhes garantido o direito maior de viver com dignidade, de lutarem por seu sustento. Deixo claro, mais uma vez: fique em casa. Mas faço um adendo: pare de se meter na vida alheia, pois não conheces as dores do teu vizinho. Sobreviver é para baratas.

*Daniel Gerber é advogado criminalista com foco em gestão de crises e compliance político e empresarial, sócio-fundador dos escritórios Daniel Gerber Advogados Associados (Brasília-DF, Porto Alegre -RS) e Gerber & Guimarães Advogados Associados (Palmas -TO)

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