Covid-19: O declínio do ‘made in China’ e as economias democráticas

Covid-19: O declínio do ‘made in China’ e as economias democráticas

Sebastião Tavares Pereira*

09 de julho de 2020 | 12h00

Cadáveres foram estocados em caminhões frigoríficos, as equipes de saúde se desdobraram e se desdobram para derrotar a pandemia da Covid-19 e estrategistas empresariais, agora, fazem sua parte: se penitenciam porque não preveniram o fluxo desbalanceado de riqueza para a China. O país, em 30 anos, tornou-se a segunda potência econômica mundial. Seria hora, também, de o legislador constitucional retomar algumas diretrizes originárias, sábias, de 1988? Uma re-visita ao sepultado artigo 171, da Assembleia Nacional Constituinte, está sendo necessária?

A PEC 6/1995 simplesmente apagou o artigo, que falava em empresa nacional e do seu papel para o bem-estar do país, e abandonou preocupações e inspirações do constituinte originário. Foi visto como incompatível com as diretrizes liberalizantes do fenômeno da globalização e riscado do texto constitucional. E parecia mesmo inadequado para as expectativas de 1995. Mas e para o agora? O mundo ficou mais complexo. E antigas divisões ressurgiram, em remake exuberante, é verdade.

Não eram mais válidas para o encaixe econômico-financeiro do país no contexto do mundo. Vivia-se o rearranjo de tudo no pós-desmonte soviético. A prevalência econômica do capitalismo democrático parecia eterna. Ocorre que, em apenas 25 anos, as expectativas murcharam. Não se trata de promover um “nós contra eles” ou de revanchismo ou de xenofobia econômica induzida pelo fenômeno pandêmico. A pandemia é circunstancial. Trata-se de algo mais profundo: recolocar racionalmente os vários elementos no tabuleiro da economia mundial atual. Negócios, relações internacionais e amizade são departamentos próximos, mas distintos.

O ‘made in China’, em 1995 ainda depreciado, ganhou espaço nas prateleiras em todo o mundo. O gosto pelos artigos suíços ou germânicos, antiga expressão do que é bom, foi empalidecendo. Preço baixo e melhoria de qualidade pela absorção da expertise industrial ocidental catalisaram recursos do mundo democrático para o país comunista que entendeu e usou com maestria a força do capitalismo para acumular riqueza. O que parecia uma mistura impossível aconteceu: comunismo e capital.

Enquanto nosso constituinte derivado matava o artigo 171, em 1995, Robert Hue, presidente do partido comunista francês, lançava na França o livro Comunisme, la mutation. Desde anos antes, com a catalisadora mistura, a China não só atraiu plantas industriais, como se inseriu, sub-repticiamente, nas cadeias produtivas e de suprimento de cada planta fabril e de distribuição do globo. Uma dependência de fonte única que os estrategistas teriam de ter prevenido.

No sistema de vasos comunicantes da economia, era bem visível esse desatinado deslocamento de empregos, por exemplo, para os fundões da nação asiática. Milhões e milhões de chineses, sem sindicatos e sem democracia, eram um prato cheio para quem focava o lucro e o menor preço. Empregos lá, baratos e abundantes, desemprego fora de lá. Cada emprego levava com ele riqueza e a possibilidade de alguém trabalhar no resto do mundo.

De repente, um vírus trouxe à mostra o cenário apreciado por permitir explorar mão de obra barata. Cada negócio, focado na renhida disputa diária e competitiva do mundo globalizado, não teve tempo para uma visão macro-estratégica. Faltou a consciência de que “eu e todos os meus concorrentes temos, em alguma engrenagem da cadeia produtiva, algo oriundo da China”. O desastre dos micro-erros veio à tona agora com a covid-19.

As democracias, notadamente as ocidentais, vivem sua crise nas UTIs do mundo. Entubadas, no pós- trauma coronavirusiano, precisam repensar o modo de vida e a organização econômica. As pranchetas estão sofrendo sob as pontas de canetas dos planejadores empresariais que o tempo de ventilação artificial despertou do torpor. No plano jurídico-estratégico, há países evoluindo suas legislações para repatriar negócios e evitar transferências de titularidade em áreas estratégicas. A reorganização das economias do mundo, nas áreas em que a democracia continua sendo um valor, parece ser um imperativo.

Em termos empresariais, as cadeias produtivas não podem depender mais de apenas uma fonte. Os mais espertos usarão fontes múltiplas, postadas em espaços democráticos, transparentes e plurais. Todos os fluxos precisam ser rearranjados. Isso abre oportunidades para as economias democráticas. Os vasos comunicantes precisam mostrar o fluir equilibrado de tudo que se produz: riqueza, emprego, crenças e liberdades.

As democracias despertas têm de reflorescer. O declínio do “made in China” precisa ser apenas a face econômica da recuperação de valores mais fundamentais, de matiz democrático, como as liberdades. Os ditos países emergentes, inclusive os mais distantes dos pólos centrais, não podem abrir mão, pela fragilidade econômica, de seus valores fundamentais. A hora é agora. Como o doente emocionado que sai da UTI, os países democráticos precisam redistribuir a riqueza e as expertises, incluir, condicionar o econômico ao democrático, mas fortalecendo o econômico, e melhorar as condições de vida de seus cidadãos. Muitos empregos podem ressurgir por essa via.

Não se trata de um “nós contra eles”, repita-se. Trata-se daquele momento dialético de sintetizar, aproveitar o susto e o sofrimento antitéticos para dar o passo em direção a uma realidade nova, diferente e melhor para todos. Nem só de economia vive o homem. Mas a vida e sua qualidade dependem muito, ou inteiramente, da economia.

Um reexame do revogado artigo 171 e seus parágrafos, além de mostrar que o constituinte originário vivia uma realidade parecida com a de agora, evidencia princípios, preocupações e diretrizes de organização econômica aptos para a formulação de políticas de rearranjo para os tempos atuais. Afinal, o mundo de 2020 é muito mais assemelhado ao dos anos 1986/1987 do que ao do ano de 1995, quando se enterrou o artigo e se sonhava com um mundo único, capitalista e democrático. Os legisladores estrategistas devem voltar às suas pranchetas. Não se trata de repristinar textos, simploriamente, mas de reativar textualmente preocupações e inspirações numa operação atualizadora e contextual.

*Sebastião Tavares Pereira é mestre em Ciência Jurídica e pós-graduado em Direito Processual Civil, juiz aposentado do TRT-12 e diretor da ABMT (Associação Brasileira dos Magistrados do Trabalho).

https://politica.estadao.com.br/blogs/fausto-macedo/covid-19-o-declinio-do-made-in-china-e-as-economias-democraticas/


Posts relecionados

STF julga recurso sobre recolhimento do IPVA nesta semana

Rodrigo Rigo diz que é grande a chance de a decisão final ser...

Receita prorroga vencimento de mensalidades de parcelas de tributos

O tributarista Rodrigo Rigo Pinheiro diz que a portaria não é aplicável a...

Fale conosco

Endereço
Rua Wisard, 23 – Vila Madalena
São Paulo/SP
Contatos

(11) 3093 2021
(11) 974 013 478