Inteligência artificial não ameaça a advocacia. Ameaça a mediocridade

Inteligência artificial não ameaça a advocacia. Ameaça a mediocridade

Por Daniel Gerber

Uma ferramenta pode sugerir caminhos, mas não substitui a visão de mundo de quem conduz o caso. Não reproduz, por completo, a forma de interpretar os fatos, escolher as palavras, construir uma narrativa ou transformar uma peça técnica em uma peça com força própria

Escrevo este texto inspirado pelo embate que a Enter trava hoje com a OAB de São Paulo. Não falo em nome da empresa, nem pretendo transformar este artigo em uma manifestação sobre o caso específico. A disputa, porém, recoloca em discussão uma questão que venho defendendo há algum tempo: a inteligência artificial não veio para acabar com a advocacia.

Ela veio para mudar a forma como fazemos advocacia — e, sobretudo, para deixar mais evidente a diferença entre quem apenas produz documentos e quem realmente pensa, cria e constrói soluções.

A inteligência artificial tem sido alvo de ataques que, muitas vezes, nascem mais do medo do que de uma análise honesta. Há quem trate qualquer uso da tecnologia como uma ameaça à profissão, à autoria ou à qualidade do trabalho jurídico. Não penso assim.

A IA não diminui a advocacia. O que ela faz é desafiar uma forma antiga de trabalhar, baseada em excesso de operação, repetição e desperdício de tempo. E talvez seja justamente isso que incomode tanto.

Existe uma confusão comum, sobretudo nas profissões mais tradicionais: imaginar que a mudança nos instrumentos de trabalho levará ao desaparecimento da própria profissão. Não é a mesma coisa.

A IA não substitui o advogado. Ela substitui, cada vez mais, uma parte do trabalho mecânico, repetitivo e operacional que durante anos ocupou o tempo de profissionais qualificados. Com isso, abre espaço para o que realmente exige um advogado: raciocínio jurídico, estratégia, interpretação dos fatos, compreensão dos interesses em conflito e capacidade de construir soluções.

Mas há um ponto que precisa ser dito, ainda que não seja confortável: a inteligência artificial ameaça muito mais o advogado preguiçoso ou negligente do que o advogado competente.

A ferramenta, sozinha, não entrega excelência. A IA consegue processar uma quantidade enorme de informações, encontrar padrões, organizar argumentos e acelerar tarefas. O resultado, porém, depende de quem está diante dela. Depende da capacidade de formular bem o problema, perceber inconsistências, definir prioridades e avaliar criticamente a resposta recebida.

Quem não domina o Direito terá dificuldade para distinguir uma resposta sofisticada de uma resposta errada. Quem não conhece o processo talvez não perceba a nulidade que passou despercebida. Quem não entende de estratégia não saberá qual argumento deve ser desenvolvido, qual deve ser deixado de lado e qual nem deveria ter sido apresentado.

A IA não dá conhecimento a quem não o tem. Também não transforma um profissional medíocre em um grande advogado.

Ela amplia a capacidade de quem sabe o que está fazendo — e deixa mais visível a fragilidade de quem apenas repete fórmulas.

Por isso, não vejo a IA como uma concorrente. Vejo-a como uma das ferramentas mais poderosas que já chegaram ao nosso trabalho. Ela pode ajudar a trabalhar melhor, com mais velocidade e profundidade. Mas a direção continua sendo humana.

Foi assim com a máquina de escrever, com os computadores, com os bancos de dados jurídicos e com a digitalização dos processos. Todas essas mudanças alteraram rotinas, eliminaram tarefas e exigiram novas competências. Sempre houve quem preferisse resistir. O tempo, no entanto, não costuma negociar com a nostalgia.

Com a inteligência artificial não será diferente. Não basta usá-la. É preciso saber usá-la, incorporá-la ao método de trabalho e submetê-la ao rigor do conhecimento jurídico. A ferramenta pode acelerar uma pesquisa, mas o conteúdo precisa ser conferido. Pode sugerir uma tese, mas precisa ser juridicamente sustentável. Pode ajudar a redigir uma peça, mas a responsabilidade pelo que se assina continua sendo do advogado.

Essa distinção é essencial: automatizar uma tarefa não significa automatizar o discernimento. Produzir um documento também não é o mesmo que construir uma defesa, definir uma estratégia processual ou compreender as consequências humanas, econômicas e jurídicas de uma decisão.

E é justamente aqui que a singularidade do advogado permanece — e pode até se tornar mais evidente.

Uma boa peça não é apenas um conjunto de informações juridicamente corretas. Ela precisa ter ritmo, clareza, força e propósito. Precisa traduzir uma estratégia, alcançar quem vai lê-la. Em alguns casos, precisa até transformar a técnica em poesia.

Nenhuma ferramenta faz isso sozinha. A inteligência artificial pode ajudar a encontrar informações, cruzar dados, organizar argumentos e acelerar uma primeira versão. Mas não conhece, como o advogado conhece, a história de cada caso, a personalidade de cada cliente, o momento certo de insistir em um argumento ou de abandoná-lo. Não tem a nossa intuição, a nossa experiência nem a nossa responsabilidade diante daquilo que será dito e assinado.

A tecnologia não elimina a autoria. Ela pode ampliar o trabalho de quem tem algo próprio a dizer. Pode liberar tempo para estudar mais, pensar melhor, escrever com mais cuidado e enxergar o que antes ficava escondido pela urgência.

Há também uma dimensão econômica que não pode ser ignorada. Escritórios que incorporarem essas ferramentas com inteligência poderão aumentar a produtividade, reduzir custos, atender melhor e dedicar mais tempo à análise estratégica. Ignorar a transformação não vai proteger o mercado de ninguém. Pode apenas colocar o profissional resistente em desvantagem diante daquele que aprendeu a trabalhar com a tecnologia.

Isso não quer dizer que toda inovação seja boa, que toda ferramenta entregue o que promete ou que a adoção da IA dispense cautela, confidencialidade e responsabilidade profissional. Quer dizer apenas que a tecnologia deve ser avaliada por suas possibilidades e pelos seus riscos reais — e não pelo medo abstrato de que o novo destrua tudo o que conhecemos.

Também não significa defender o uso irresponsável da IA. Pelo contrário. Quanto mais poderosa a ferramenta, maior deve ser o rigor de quem a utiliza. A resposta precisa ser verificada. A fonte precisa ser conferida. A estratégia precisa ser pensada. A decisão final precisa pertencer a alguém que compreenda as consequências do que está fazendo.

O progresso não pede licença. Podemos entendê-lo, participar dele e aprender a conduzi-lo. Ou podemos gastar energia tentando impedir que ele aconteça.

A segunda alternativa costuma ser mais confortável no começo e mais cara depois.

A advocacia continuará precisando de profissionais capazes de interpretar a lei, compreender pessoas, construir argumentos, avaliar riscos e assumir responsabilidades. Continuará precisando de profissionais que saibam escrever — não apenas preencher páginas. Que consigam dar clareza ao que é complexo, força ao que é delicado e humanidade ao que, muitas vezes, chega ao processo de forma bruta.

O que tende a mudar é a quantidade de trabalho improdutivo necessária para colocar essas competências em prática.

E isso é uma boa notícia. Se a tecnologia nos permite fazer melhor, em menos tempo, o que antes exigia um esforço operacional excessivo, o advogado competente passa a ter condições de ser ainda mais competente.

A inteligência artificial não reduz a importância do conhecimento. Ao contrário: aumenta o valor de quem realmente o possui.

Também não elimina a nossa capacidade de criar. Uma ferramenta pode sugerir caminhos, mas não substitui a visão de mundo de quem conduz o caso. Não reproduz, por completo, a forma de interpretar os fatos, escolher as palavras, construir uma narrativa ou transformar uma peça técnica em uma peça com força própria.

O futuro não será do advogado que tenta competir com a máquina na execução de tarefas. Será de quem souber usar a máquina para alcançar resultados que, sem ela, seriam mais difíceis, mais lentos ou até inviáveis — sem abrir mão daquilo que torna o seu trabalho único.

A questão, portanto, não é saber se a inteligência artificial vai entrar na advocacia. Ela já entrou.

A questão é saber quem estará preparado para trabalhar com ela quando essa transformação estiver consolidada — e quem ainda estará tentando explicar por que preferia trabalhar sem ela.

Eu continuo defendendo que a tecnologia não diminui a advocacia. Quando bem utilizada, ela devolve tempo para pensar, criar e fazer melhor aquilo que só o profissional pode fazer.

A IA pode acelerar o caminho. Mas a escolha do destino, a responsabilidade pelo percurso e a capacidade de transformar uma peça em argumento, em narrativa e, às vezes, em poesia, continuam sendo humanas.

*Daniel Gerber é mestre em Direito Processual Penal e sócio-fundador da Daniel Gerber Advocacia Criminal e Corporativa

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