
‘Faroeste tributário’: quando tem dúvida, fiscal prefere multar, diz pesquisa
Segundo pesquisa do CNJ, regras estimulam auditores fiscais a tratar contribuintes como adversários
Bloomberg Línea — Pesquisa do CNJ (Conselho Nacional de Justiça) sobre o contencioso tributário no Brasil comprova, com base em metodologia científica, uma percepção disseminada entre advogados tributaristas e empresários: Receita Federal e os fiscos estaduais são orientados para tratar quem paga impostos como adversários. O estudo foi divulgado na terça-feira (15).
De acordo com a pesquisa, diversos órgãos fiscais disseram ao CNJ que têm um órgão interno responsável por interpretar as leis tributárias. Mas nenhuma secretaria de fazenda dos estados e nem a (PGFN) Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional tem formas de impedir que autuações fiscais sejam feitas antes de essas interpretações oficiais serem adotadas.
Na opinião dos pesquisadores, o quadro leva os auditores fiscais a ter dúvidas sobre qual interpretação devem aplicar. Só que, conforme as secretarias de fazenda responderam ao CNJ, na dúvida sobre o que fazer diante de uma regra tributária, os auditores fiscais autuam os contribuintes.
“As consequências disso são terríveis”, afirma o advogado tributarista Breno Vasconcelos, professor do Insper e coordenador da pesquisa do CNJ.
Segundo ele, “esse dado mostra que o Estado transfere para uma multiplicidade de auditores fiscais a tarefa de interpretar a lei e os atos dos contribuintes, especialmente de empresas. Em outras palavras: pode haver tantas interpretações diferentes quanto forem os auditores, o que gera uma baita insegurança jurídica”.
“Outra consequência é a possibilidade de se ter aplicações diferentes da mesma lei para contribuintes em situações iguais. Isso viola o princípio da igualdade e, principalmente, a livre concorrência”, completa Vasconcelos.
O advogado Daniel Szelbracikowski, sócio do escritório Advocacia Dias de Souza, um dos principais no ramo tributário, em Brasília, aponta para outro problema: a falta de transparência da administração e o descaso com quem procura orientações.
