Como a restrição a menores nas redes sociais pode impactar a economia?
A decisão do governo do Reino Unido de proibir o acesso de menores de 16 anos às redes sociais a partir de 2027 pode provocar impactos que vão muito além do debate sobre segurança digital.
A medida, anunciada pelo primeiro-ministro britânico Keir Starmer, atinge diretamente a capacidade das plataformas de atrair usuários desde cedo e construir relacionamentos de longo prazo com suas audiências.
O anúncio ocorre em um momento de crescente pressão internacional por regras mais rígidas para a proteção de crianças e adolescentes na internet.
Além das redes sociais, o governo britânico informou que pretende incluir restrições a determinadas plataformas de jogos e aplicativos de transmissões ao vivo.
Embora o objetivo central seja reduzir riscos relacionados à saúde mental, exposição a conteúdos inadequados e uso excessivo de telas, especialista avalia que a iniciativa também pode alterar a dinâmica econômica de um mercado que movimenta bilhões de dólares por ano.
Para Ricardo Alves, sócio e líder de Inovação do escritório Fragata e Antunes Advogados, o impacto financeiro da medida não deve ser analisado apenas pela eventual perda de receita gerada por usuários adolescentes.
“O impacto não se mede só pela receita publicitária imediata de menores de 16 anos. As plataformas monetizam atenção recorrente, dados comportamentais e permanência do usuário”, contextualiza.
O especialista observa que a restrição afeta um processo considerado estratégico para empresas digitais.
“Restringir o público jovem afeta a formação de audiência, o histórico de comportamento e a construção de comunidades e influenciadores”, detalha.
A consequência é que plataformas como TikTok, Instagram, Snapchat e YouTube podem encontrar mais dificuldades para consolidar novas gerações de usuários, reduzindo sua capacidade de fidelização ao longo do tempo.
Atenção digital virou ativo econômico
O modelo de negócios das grandes plataformas digitais depende fortemente da capacidade de captar atenção, gerar engajamento e coletar informações sobre comportamento dos usuários.
O governo britânico reconhece que a nova política terá custos econômicos, mas entende que os benefícios relacionados à proteção infantil justificam a medida.
Dentro desse cenário, a audiência jovem possui papel relevante porque representa o início da jornada digital de futuros consumidores.
Mesmo que adolescentes não sejam responsáveis pelas maiores receitas das plataformas, eles ajudam a impulsionar tendências, criam comunidades e influenciam hábitos de consumo que permanecem por anos.
“No curto prazo, há queda de engajamento e de inventário publicitário; no longo prazo, perda da capacidade de acompanhar a jornada do usuário desde cedo”, projeta Alves.
O especialista acrescenta que a medida atinge um elemento central da estratégia das empresas de tecnologia.
“Mesmo as empresas com folga financeira para absorver a medida veem um ativo central ser atingido: a atenção recorrente do usuário jovem”, ressalta.
Nova legislação amplia custos operacionais
Além dos possíveis efeitos sobre audiência e publicidade, a regulamentação deve gerar uma nova camada de despesas para as plataformas.
A implementação da proibição exigirá mecanismos capazes de identificar a idade dos usuários com maior precisão, reduzindo a possibilidade de cadastros fraudulentos.
Para cumprir esse objetivo, empresas precisarão investir em tecnologia, processos de verificação e sistemas de controle mais sofisticados.
“O novo ambiente regulatório exige mais do que termos de uso: pede verificação efetiva de idade, supervisão parental, moderação e auditoria algorítmica”, explica Alves.
Isso significa gastos com inteligência artificial, validação de identidade digital, revisão de produtos, proteção de dados e equipes especializadas em conformidade regulatória.
“Isso significa investimento em IA, revisão de produtos, fornecedores de identidade digital, governança de dados e relatórios de transparência, além de custo jurídico, já que cada país pode adotar um modelo próprio”, observa.
Embora a maior parte da conta recaia inicialmente sobre as plataformas, o efeito pode se espalhar por toda a cadeia digital.
“A conta começa nas plataformas, que controlam dados, algoritmos e o desenho da experiência, mas parte tende a se redistribuir”, avalia.
Nesse cenário, anunciantes podem enfrentar custos maiores para alcançar públicos específicos, enquanto usuários podem encontrar mais barreiras de acesso ou menos serviços gratuitos.
Mercado já monitora risco regulatório
O Reino Unido segue um movimento iniciado por outros países, incluindo a Austrália, que já avançou em propostas semelhantes para limitar o acesso de menores às redes sociais.
Caso a tendência se espalhe para mercados maiores, especialistas acreditam que o setor poderá enfrentar mudanças estruturais.
Segundo Alves, o modelo econômico das plataformas digitais está apoiado em três pilares principais: coleta de dados, personalização de conteúdo e publicidade direcionada.
A nova regulação afeta diretamente esses elementos ao limitar a obtenção de informações sobre usuários menores de idade e restringir mecanismos voltados para retenção de audiência.
“Restringir dados de menores reduz a personalização e a publicidade comportamental para esse público”, pontua.
Além disso, práticas como rolagem infinita, notificações constantes e recomendações automatizadas podem sofrer restrições adicionais nos próximos anos.
“Do ponto de vista jurídico, a regulação da infância pode ser apenas o primeiro passo de uma regulação mais ampla da economia da atenção”, alerta.
Apesar disso, o especialista não prevê uma perda imediata de valor para as gigantes da tecnologia.
“Não vejo, necessariamente, queda imediata e generalizada de valor de mercado, porque as big techs têm escala e capacidade de adaptação”, pondera.
Ainda assim, ele acredita que o mercado financeiro passará a considerar com mais atenção os riscos regulatórios associados ao setor.
Empresas de segurança digital podem sair fortalecidas
Enquanto parte da indústria digital enfrenta novos desafios, outros segmentos tendem a ganhar espaço.
O aumento das exigências regulatórias pode impulsionar empresas especializadas em verificação de identidade, proteção de dados, controle parental e cibersegurança.
“Tendem a perder espaço ou a enfrentar custos maiores as plataformas tradicionais de redes sociais, a publicidade comportamental e os jogos de interação aberta entre jovens”, analisa Alves.
Por outro lado, o especialista enxerga oportunidades para setores ligados à confiança digital.
“Há oportunidade clara para quem combinar tecnologia, segurança e confiança. O mercado não deixará de atender crianças e adolescentes; será obrigado a atendê-los com mais proteção e transparência”, conclui.
O Brasilianista
