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Clientes que nunca tiveram conta no BRB aparecem como inadimplentes no banco

Clientes que nunca tiveram conta no BRB aparecem como inadimplentes no banco; entenda

Clientes com empréstimos já quitados e outros serviços financeiros contratados com o Banco Master ou o Will Bank afirmam ter passado a encontrar dívidas registradas como ativas ou em atraso no Sistema de Informações de Créditos (SCR) do Banco Central.

Esses débitos aparecem vinculados ao Banco de Brasília (BRB), que afirma que, após a liquidação das instituições, deixou de receber informações sobre o repasse de pagamentos e a quitação das dívidas dos clientes. Mas como esses créditos foram parar nas mãos do BRB?

A carteira de crédito do Will Bank, que faz parte do conglomerado do Master, foi transferida ao BRB em meio às negociações frustradas para aquisição da instituição de Daniel Vorcaro pelo banco estatal.

Laís Rocha, de 21 anos, diz que, em 2024, parcelou em 20 vezes uma fatura de cartão de crédito com o Will Bank e que todos os pagamentos estavam em dia. No entanto, a assistente administrativa se surpreendeu ao consultar o sistema do Banco Central e verificar que constava como inadimplente, indicando parcelas em atraso desde novembro de 2025.

— No dia 20 de janeiro (um dia antes da liquidação do banco) eu paguei a parcela normalmente e no mesmo dia entrei no aplicativo de outro banco, onde mostrava que o meu score havia diminuído porque estava com dívida vencida há mais 30 dias em outra instituição. Quando vi essa mensagem me assustei, porque pago minhas contas certinho — relatou a jovem que mora em Belo Horizonte.

Quando Laís acessou o sistema do BC viu que a suposta dívida registrada em seu nome era do BRB:

— Nessa hora eu fiquei mais assustada porque nunca tive conta neste banco.

‘Jogo de empurra’

O BRB informou em nota que, após a liquidação do Will Bank, deixou de receber do liquidante as informações necessárias sobre o repasse e a quitação das operações de crédito cedidas. No entanto, no caso de Laís, a dívida consta como vencida desde novembro de 2025, período anterior à liquidação da instituição.

“Após a liquidação, esse fluxo não foi retomado ainda pelo liquidante de modo que o BRB ainda não dispõe de informações suficientes para a baixa das operações. Por essa razão, alguns contratos aparecem como ativos ou inadimplentes no Sistema de Informações de Créditos (SCR), mesmo já tendo sido pagos no banco de origem”, acrescentou o banco na nota.

A jovem afirma que restam apenas quatro parcelas a vencer, sendo a última em maio, e que pretendia quitá-las de uma única vez.

— As parcelas são de R$ 100, mas a dívida com o Banco BRB já passa de R$ 1 mil. Quando vi esse valor, desisti de pagar tudo de uma vez — disse.

Em contato com uma atendente do BRB, Laís foi informada de que o parcelamento da dívida teria sido cedido à instituição em agosto de 2025, mas que o Will Bank repassou o contrato em aberto e que os pagamentos já realizados não foram repassados ao BRB.

Assim como Laís, um funcionário público que mora no Tocantins, e que preferiu não se identificar, afirma ter uma dívida antiga reativada pelo BRB. Segundo ele, a fatura vinculada ao Will Bank já havia sido quitada em 2025. Como tem conta no BRB, onde recebe o salário, tomou conhecimento do problema por meio da própria instituição.

— Já até tentei pagar, porque estou com medo de aumentar os juros e isso afetar mais meu score, mas não consegui porque não tem como fazer boleto ou Pix. O meu cartão de crédito do BRB já foi cancelado por essa dívida — explicou ele, que relata que o débito em seu nome no banco estatal de Brasília já soma cerca de R$ 600.

O funcionário público reclama da falta de informação.

— Entrei em contato com o BRB e falaram que foi de uma carteira de crédito que compraram do Will Bank e que era pra eu falar com eles. Entrei em contato com o Will Bank, e disseram que era para eu resolver com o BRB. Fica um jogando para o outro e ninguém resolve nada — contou.

No site Reclame Aqui, há dezenas de relatos semelhantes ao de Laís e ao do funcionário público de Tocantins. O BRB informou que segue atuando junto ao liquidante para normalizar a situação e está preparado para realizar a correção imediata dos dados assim que houver retorno do administrador do banco em liquidação. O GLOBO não conseguiu contato com o Will Bank.

A advogada especialista em Direito do Consumidor Fernanda Zucare explica que falhas no repasse de informações são comuns em processos de liquidação de bancos ou venda de carteiras de crédito. Segundo ela, no entanto, a responsabilidade legal pela correção dos dados é da instituição que adquiriu a carteira.

— É essa instituição que adquiriu a carteira quem mantém a relação atual com o consumidor e quem pratica o ato lesivo ao exigir pagamento indevido ou manter a dívida como ativa. Ao assumir a carteira, o banco cessionário sucede o anterior na posição de credor e responde integralmente pela veracidade, atualização e regularidade dos dados, independentemente de o erro ter se originado no banco cedente— explicou Fernanda.

Cliente deveria ser avisado

Ela ressalta que isso, porém, não exclui a responsabilidade do Will Bank na relação entre as instituições financeiras.

— Havendo erro na informação transmitida, o banco cedente pode ser chamado a responder em regresso pelos prejuízos causados ao cessionário — afirmou.

Para o especialista em Direito Societário Leandro Fonseca, os clientes deveriam ter sido comunicados sobre a venda da carteira:

— É uma determinação legal de toda cessão de crédito de que, para ser válida e eficaz, ela tem que necessariamente ser dada ciência ao devedor original. Então, ao descumprir regra expressa no Código Civil, a sessão é nula em relação ao devedor. Essas pessoas que estavam pagando corretamente as parcelas podem alegar que honraram com os compromissos com o credor original.

O que fazer nestes casos?

Segundo Fernanda Zucare, advogada especialista em Direito do Consumidor, diante de uma situação como essa, o cliente deve se proteger seguindo uma série de passos. O primeiro é registrar protocolos formais junto ao banco que está fazendo a cobrança da dívida. O segundo é exigir a correção imediata das informações que constam no cadastro.

• A partir daí, a recomendação é guardar todos os comprovantes de pagamento e a quitação da dívida em questão. Sempre que questionar a instituição financeira, a dica é solicitar respostas por escrito. E, por fim, a orientação é registrar reclamação junto ao Banco Central e no portal consumidor.gov.br.

• A advogada alerta que o cliente não deve pagar uma dívida que sabe ser inexistente ou já quitada, mesmo que a motivação seja o medo de ter seu score prejudicado. No entanto, para quem ainda tem faturas em aberto, a recomendação é seguir pagando normalmente, afirma Leandro Fonseca, especialista em Direito Societário.

— Os pagamentos devem ser feitos pelo mesmo meio usado para pagar as parcelas anteriores. Se não for possível pagar por lá, então tem que considerar fazer uma consignação em pagamento, via Banco do Brasil, que é basicamente um depósito para assegurar que o cliente cumpriu com sua obrigação de pagamento no prazo do vencimento — explicou.

• Especialistas alertam ainda para o fato de que, enquanto as supostas dívidas permanecem em aberto, os consumidores podem sofrer incidência de juros e multas, além de impactos como restrição à concessão de crédito, redução de score, recusa de financiamentos, exigência de juros mais altos, diminuição de limites e bloqueio de novos contratos.

• O impacto é indireto, mas real, porque o score influencia a leitura que o mercado faz do perfil do consumidor, avalia Fernanda, lembrando que situações como essa abrem espaço para indenizações por dano moral:

— A jurisprudência entende que a insegurança financeira, o constrangimento e a perda de oportunidades de crédito configuram dano moral indenizável.

Leia a íntegram em O Globo


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