Logo Estadão

O day after da covid-19: governo, emprego e trabalho

O day after da covid-19: governo, emprego e trabalho

José Antunes Sobrinho*

José Antunes Sobrinho. FOTO: DIVULGAÇÃO

O quadro atual não permite prever quando a pandemia que varre o planeta terminará. Mas já se sabe que são grandes as chances de  profunda devastação da economia dos países e de suas empresas. Já não cabe discutir se o que funciona é uma política econômica liberal ou não. Trata-se de verdadeira situação de guerra. No Brasil, nada que já tenhamos passado pode ser tão agressivo contra pessoas físicas e empresas.

Não é à toa que grandes economias deixaram de discutir os limites  suportáveis dos danos emergentes – sem olhar a relação entre dívida e PIB – porque sabem que se não agirem de forma consequente simplesmente não terão PIB para medir.

É bem verdade que já vínhamos de situação econômica frágil, com  política apoiada na esperança de que a iniciativa privada trouxesse a poupança necessária para uma retomada. Mas o que urge agora, em emergência, é política econômica renovada, voltada para a direção oposta. Sim. Continuam necessárias as mudanças estruturais que o governo persegue para atrair o capital privado. Mas o problema é que não se sabe quando isso se dará. E o Brasil não pode esperar.

Outra verdade imutável é que a infraestrutura é o setor que mais emprega no país, algo que foi muito praticado, e com sucesso, nos governos militares. Não por acaso, com as mais altas taxas de crescimento da história, no período do decantado milagre brasileiro. E os projetos realizados estão aí até hoje, a destacar aqueles no campo da energia, das ferrovias, dos aeroportos e das telecomunicações.

Vale ressaltar que foi esse também o caminho do crescimento europeu, com o Plano Marshall, bem como do japonês, nos anos pós-guerra, ou na América do New Deal, após a quebra da bolsa de Nova Iorque, em 1929. Estradas, ferrovias e hidrelétricas, como a icônica Hoover Dam, em Nevada, para mencionar apenas um exemplo, foram projetos lançados por Franklin Delano Roosevelt para conduzir a América para longe da tragédia como parte de uma estratégia centrada no investimento forte em obras de base e de infraestrutura.

O governo federal possui hoje no Brasil, ao contrário de muitos países, os instrumentos para tomar em mãos e implementar a retomada da geração de empregos, imediatamente após a pandemia. Além do Ministério de Infraestrutura, que sabe onde e como se haverá de investir, gerando empregos sem competir ou desincentivar a iniciativa privada, o Brasil dispõe de mais de 350 bilhões de dólares em reservas, das quais 50 ou 60 bilhões poderiam ser aplicados em inadiáveis projetos de infraestrutura.

Em 1999, o governo FHC fez o Proer, que salvou bancos e injetou mais de 80 bilhões de dólares no sistema financeiro, o que malgrado críticas que recebeu, foi esforço necessário ao país como um todo. Agora, projetos e investimentos também vultosos em infraestrutura seriam infinitamente mais benéficos, haja vista o retorno imediato em forma de empregos e renda, além do patrimônio coletivo que irão legar à posteridade.

Onde investir? Desde logo, projetos na área de saneamento por todo o país, nas áreas urbanas , e cerca de 10.000 quilômetros de malha rodoviária federal em zonas de escoamento de safra, além de incontáveis obras de construção civil paralisadas – estas últimas seriam vitais para o crescimento sustentável da economia, como apontou recentemente o TCU e, mesmo, o STF, por meio de pronunciamento de seu presidente, o Ministro Dias Toffoli.

Projetos mais que urgentes e necessários, além de outros tantos paralisados, certamente não faltam no Brasil. E, premido até pela motivação inadiável de criar empregos, o governo tem de agir. Como decerto farão grandes economias globais, como Estados Unidos, Espanha, Reino Unido e Alemanha, com aportes maciços  em suas economias.

O ministério de Infraestrutura tem uma excelente visão e qualificação para tocar um programa como este mesmo envolvendo outras obras paralisadas não relacionadas com a sua área. Além disso, os projetos selecionados não devem competir  com os empreendimentos reservados para a iniciativa privada, ainda que, diante do novo quadro, como mencionado, tais investimentos privados possam tardar.

Assim, um grupo-tarefa capitaneado pelo Poder Executivo, mas com forte e minuciosa governança no uso dos recursos públicos, com apoio do TCU, agências e auditoras privadas, poderia, com a vontade política pós pandêmica que por certo sobrevirá, encaminhar programa inédito de geração de emprego e renda, fadado a pacificar e transformar o Brasil.

*José Antunes Sobrinho é engenheiro, mestre em Hidráulica pelo Institute for Hydraulic and Environmental Studies of Delft, nos Países Baixos, sócio da Nova Participações.

https://politica.estadao.com.br/blogs/fausto-macedo/o-day-after-da-covid-19-governo-emprego-e-trabalho/?utm_source=estadao:whatsapp&utm_medium=link 


Posts relecionados

Especialistas divergem sobre resolução que amplia poderes do TSE

Norma permite que Corte mande excluir, sem provocação, posts “sabidamente inverídicos”

Juiz suspende nomeação de Larissa Dutra para presidente do Iphan

Os advogados Tony Chalita e Flávio Henrique Costa Pereira, representam o deputado Federal Marcelo Calero, que...

Fale conosco

Endereço
Rua Wisard, 23 – Vila Madalena
São Paulo/SP
Contatos

(11) 3093 2021
(11) 974 013 478