Texto da reforma tributária traz problemas, mas melhora atual

Texto da reforma tributária traz novos problemas, mas melhora modelo atual, dizem economistas

Mudanças do texto inicial trouxe mais exceções ao Imposto sobre Valor Agregado (IVA) e aumenta o valor do Fundo de Desenvolvimento Regional (FDR) para R$ 60 bilhões

Por Diego Mendes

26/10/2023 às 19:11 | Atualizado 27/10/2023 às 09:42

O relator da reforma tributária no Senado Federal, Eduardo Braga (MDB-AM), apresentou na quarta-feira (25) seu parecer para a matéria. O texto traz novas exceções ao Imposto sobre Valor Agregado (IVA) e aumenta o valor do Fundo Nacional de Desenvolvimento Regional (FNDR) para R$ 60 bilhões.

Economistas consultados pela CNN avaliam que as mudanças do texto inicial trouxe mais exceções e adicionou complicações que não tinham antes. Porém, é um importante passo para melhorar o modelo de tributação utilizado atualmente.

Na visão de Gabriel Barros, economista-chefe da Ryo Asset, o texto da reforma tributária apresentado pelo relator afasta o país do modelo que colocava o país na primeira divisão em matéria de boas práticas tributárias de IVA, mas ainda assim é melhor do que o atual sistema.

“A versão apresentada amplia as exceções e entrega uma reforma de quarta divisão, mas que é melhor do que estar fora do campeonato. A tentativa de acomodar a PEC 110 em nova versão piorou a qualidade da reforma original”, avalia Barros.

Isso porque, diz o economista, a mais recente versão apresentada pelo relator à Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado, ao ampliar os setores que terão regimes específicos e diferenciados, “entrega uma reforma cada vez mais distante daquela que propõe maior produtividade e crescimento potencial.”

Luis Wulff, CEO da consultoria Tax Group, especialista em Compliance, Tecnologia e Inteligência Tributária, destaca, contudo, que o texto do Senado é “mais pensado” que o da Câmara.

“Tentou tirar as distorções do texto que veio da Câmara, que foi aprovado muito rápido e com pouco debate. Muitas situações ficaram obscuras e gerariam aumento de tributação. O Senado trouxe melhorias ao texto”, disse.

Barros cita também o aumento do custo fiscal em R$ 20 bilhões para o FNDR (Fundo Nacional de Desenvolvimento Regional). Em sua opinião, esse ponto não deve ser comemorado e é um problema adicional às exceções e regimes diferenciados propostos citados, reforça Barros.

No entanto, afirma que é útil registrar que a possibilidade de tributação da extração de petróleo e mineração com alíquota máxima de 1% pode acabar compensando esse ônus fiscal adicional. Ambos os pontos são meras constatações do texto apresentado e não juízo de valor ou avaliação de mérito.

De acordo com o economista, a proposta acumula problemas de “design tributário” e, se aprovada desta forma no plenário de ambas as casas, deverá aproximar a tributação no Brasil de algo similar ao praticado na Índia — que tem 5 alíquotas e fez reforma em 2017 — colhendo resultados positivos em termos de arrecadação, ambiente de negócios e maior número de contribuintes.

“De outra forma e para uma primeira avaliação, a proposta apresentada reforça a percepção de ‘aluno nota 5’ do Brasil, que, apesar não ser referência de boas práticas, ainda assim passa raspando de ano.”

Novas dificuldades

Felipe Salto, economista-chefe da Warren Rena, diz que o novo texto apresentado para a reforma tributária propõe mudanças que não corrigem os problemas do texto aprovado pela Câmara, mas acabam adicionando outras dificuldades.

Ele destaca a criação de uma espécie de teto para a carga tributária do IBS (Imposto sobre Bens e Serviços) e da CBS (Contribuição sobre Bens e Serviços), que equivalerá à receita média de 2012 a 2021.

“Se esse patamar for ultrapassado, a alíquota de referência terá de ser reduzida. O órgão gestor do IBS, por sua vez, não terá mais a iniciativa de lei complementar, como antes, o que é um ponto positivo. Entretanto, continuará com os mesmos poderes e prerrogativas, incluindo a arrecadação, partilha, devolução de créditos, solução de conflitos entre fisco e contribuintes e regulamentação do IBS.”

Maria Andréia dos Santos, sócia do Machado Associados, reitera que a visão de que a trava para a carga é um “aprimoramento”.

“Essa medida conferirá muito mais segurança e previsibilidade aos setores e agentes econômicos, que poderão planejar melhor seus negócios, preços e expansões”, disse.

Quanto à blindagem da Zona Franca, o texto propõe, agora, que a Cide incida sobre a importação de produtos com similares produzidos em Manaus. Nesse sentido, Salto observa que a arrecadação proveniente da nova medida poderá compor o Fundo de Sustentabilidade do Amazonas e a União compartilhará sua gestão com o estado.

Pedro Lameirão, tributarista e sócio do BBL Advogados, comenta a nova alíquota intermediária — de 30% do IVA — para profissionais liberais. Ele explica que o principal argumento dos que defendem essa alteração é evitar que ocorra um aumento muito substancial na carga tributária incidente sobre essas atividades, tendo em vista o tratamento que recebem no regime atual.

“A grande pergunta é se estão corrigindo uma distorção ou apenas perpetuando ela”, pondera.

Francielle Sezotzki, advogada associada ao Cascione Advogados e especialista em Direito Tributário, indica que “com mais exceções e cenários intermediários, a alíquota média do IVA padrão deve subir de 27% para 30% ou até mais”.

No que se refere à transição, Salto enfatiza que nada foi feito para trazê-la a um horizonte de curto prazo, bem como atenuar o problema da redução de alíquotas do ICMS e do ISS concentrada entre 2029 e 2032.

“Também não se avançou na redução das exceções. Ao contrário, introduziu-se a possibilidade de redução de alíquota de 30% para categorias profissionais eleitas. A gestão do IBS continuará centralizada em um único órgão e sua regulamentação virá por lei complementar”, conclui.

 

Fonte: CNN Brasil


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