Rodízio Mounjaro? Restaurantes traçam estratégias para surfar no boom de canetas emagrecedoras
Em bares e restaurantes, um novo tipo de cliente vem redesenhando o cardápio e a matemática por trás dos negócios. A popularização de medicamentos da classe GLP-1, como o Mounjaro e outras “canetas emagrecedoras”, tem alterado hábitos de consumo de quem aderiu à medicação que mexe com o apetite. Para o setor, porém, a mudança não é apenas de paladar. Ela mexe com tíquete médio, engenharia de menu, estoque, desperdício e até com a forma de desenhar promoções — campo em que a criatividade encontra limites legais.
Na avaliação de Simone Galante, CEO da consultoria Galunion, o tema deve, de fato, estar no radar de empreendedores. Mais do que uma tendência, ela afirma que o uso de canetas emagrecedoras tende a se tornar uma variável estrutural no food service. De acordo com a pesquisa “Alimentação Hoje: a visão do consumidor”, realizada em agosto de 2025 pela Galunion, 24% dos brasileiros já usaram ou pretendem usar o medicamento, número que sobe para 40% entre os consumidores da classe A. Entre os que já utilizaram, 62% relatam redução no apetite, 55% diminuição de desejo por alimentos específicos e 42% introdução de alimentos mais saudáveis.
“Ainda, em paralelo, no nosso acompanhamento com operadores (redes e independentes) dentro do ecossistema, cresce a observação de sobras no prato e de preferência por porções menores em certos perfis e horários, sobretudo em público urbano, de maior renda e com rotina mais híbrida”, afirma Galante.
De olho nas mudanças, empreendedores do setor já vêm buscando alternativas para se adaptar. Uma das estratégias que vem repercutindo nas redes sociais são os rodízios com preços reduzidos para usuários de GLP-1. “A decisão surgiu a partir de escuta ativa dos clientes e de percepção de mercado. Percebemos, por meio de conversas no salão, feedbacks e observação de comportamento, até do meu ciclo de amizades, que existia uma demanda real por uma experiência de rodízio mais flexível”, diz Rafael Falaguasta, proprietário da CASA Falaguasta!, pizzaria de Ribeirão Preto (SP) que aderiu à oferta de um “rodízio Mounjaro”.
De acordo com o empreendedor, a iniciativa começou na última sexta-feira (23/1), ainda como um teste. No caso da pizzaria, trata-se de um rodízio com regras próprias, com quantidade limitada, permitindo que o cliente personalize a experiência. “O conceito é: menos excesso, mais escolha. 4 pedaços: R$ 39,90. 8 pedaços: R$ 54,90. O rodízio tradicional: R$ 79,90”, aponta Falaguasta.
Segundo o dono da pizzaria, como se trata de um teste operacional inicial, o negócio ainda está em fase de coleta de dados. Ele afirma que as expectativas incluem aumentar o fluxo, reduzir sobras e desperdício, melhorar a adequação do produto ao perfil do cliente, aumentar o tíquete médio com bebidas e sobremesas e reduzir o tempo médio de permanência, favorecendo o giro.
A proposta se estende para outros tipos de culinária. No Zen Cozinha Orientes, que tem duas unidades no Rio de Janeiro, o cardápio já contava com uma opção de “mini rodízio” há quatro anos e, há duas semanas, a iniciativa foi rebatizada de “Rodízio Mounjaro”. Segundo Tiago Caldeira e Lucas Ribeiro, sócios do negócio, a procura pelo formato reduzido cresceu cerca de cinco vezes desde que o novo nome foi adotado. “O ‘Rodízio Mounjaro’ funciona quase da mesma forma que o Rodízio. O cliente escolhe num tablet de autoatendimento os itens da sua preferência, a diferença é que não é ilimitado”, afirmam os sócios.
Cuidados com a estratégia
Para Sergio Molinari, professor da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM) e fundador da Food Consulting, a oferta de rodízios reduzidos pode ser interessante para alguns estabelecimentos, mas há riscos que não podem ser desconsiderados. “Do ponto de vista econômico, o raciocínio de que ‘quem come menos deve pagar menos’ não é tão automático quanto parece. O custo do rodízio não está apenas na quantidade consumida, mas na estrutura operacional, na equipe, no aluguel, na energia e na própria complexidade do serviço. Um desconto mal calculado pode corroer margens sem necessariamente trazer aumento de fluxo ou fidelização”, explica o especialista
Além disso, Molinari ressalta o risco de clientes que não usam as canetas migrarem para a opção mais barata. “Em vez de focar diretamente no desconto, tende a ser mais saudável pensar em formatos alternativos, como menus com menos etapas, rodízios reduzidos, opções à la carte mais leves ou experiências personalizáveis. O foco deve estar na adequação da oferta, e não apenas na redução de preço”, afirma.
Nesse sentido, o professor sugere que os restaurantes precifiquem considerando uma margem em Real por refeição ou produto, não um % de mark-up ou mark-down, por exemplo. “Se é fato (e é) que o consumidor das canetas busca porções reduzidas, simplificação e melhor qualidade de ingredientes etc., por uma questão da alimentação e não do preço, há uma tremenda oportunidade de o restaurante preservar integralmente o ‘cash margin’ (margem de caixa) de seus pratos, mesmo com as diminuições e as mudanças de ingredientes dos pratos”, aponta.
Além disso, restaurantes que optam por iniciativas que são divulgadas com o apelo às canetas emagrecedoras devem estar atentos a algumas questões legais. De acordo com Bruno Batista, sócio das áreas Cível e Societária da Innocenti Advogados, e Mariana Barros Mendonça, especialista em Direito do Consumidor, sócia do Fragata e Antunes Advogados, promover diferenciação de preço atrelada a uma condição de saúde pode ferir o Código de Defesa do Consumidor (CDC) e a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD).
Por exemplo, se o restaurante recusa vender o prato promocional a quem não toma o remédio, Batista afirma que ele se expõe a sanções administrativas, como multas do Procon, e ações de indenização por danos morais. “Quanto à legalidade de exigir comprovantes como receita médica, entramos em conflito direto com a Lei Geral de Proteção de Dados (Lei 13.709/2018). A receita médica revela condições de saúde, classificando-se como Dado Pessoal Sensível (Art. 5º, II da LGPD). A coleta desse dado para conceder um desconto fere o Princípio da Necessidade (Art. 6º, III da LGPD), pois o acesso à saúde do cliente não é essencial para a atividade comercial de vender alimentos”, diz o advogado.
Segundo Batista, a prática de exigir receita médica expõe o negócio a sanções da Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD), previstas no art. 52, que podem chegar a 2% do faturamento, além do risco reputacional. Os estabelecimentos ouvidos por PEGN afirmam não exigir comprovantes para o consumo dos rodízios reduzidos, que são ofertados para qualquer consumidor interessado.
De acordo com Mendonça, para mitigar riscos legais, toda promoção deve observar alguns pilares fundamentais:
• Regras claras e objetivas, facilmente acessíveis ao consumidor;
• Período de vigência bem definido;
• Limites expressos, como quantidade de produtos, número de beneficiários ou condições de uso;
• Transparência total de preços, informando o valor original, o valor promocional e eventuais restrições;
• Critérios objetivos e impessoais, evitando qualquer vínculo com características pessoais sensíveis;
• Comunicação publicitária que não seja enganosa, ambígua ou discriminatória;
• Adequação à LGPD, evitando coleta desnecessária de dados e, especialmente, de dados sensíveis.
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Outros caminhos
Para se adequar às demandas de consumo, Simone Galante afirma que há diversos caminhos possíveis. Algumas das dicas da fundadora da Galunion são:
• Porções moduláveis com “design de prato”: meia porção com estética e composição completas, degustações e “pratos em etapas”;
• Cardápio com densidade de valor: mais proteína de qualidade, mais fibra, mais frescor, mais técnica de preparo. Menos gordura pesada e excesso de cremosidade;
• Bebidas e sobremesas com inteligência: coquetelaria e bebidas menos açucaradas, versões menores. Sobremesas em porção reduzida e alto impacto sensorial.
• Experiência que acolhe: Atendimento treinado para oferecer alternativas sem julgamento. Linguagem de bem-estar e prazer, evitando discurso de dieta.
“O usuário das canetas emagrecedoras no Brasil de hoje não é alguém que abandona o food service, mas alguém que redefine como e quanto consome. Trata-se de um público economicamente relevante, socialmente ativo e altamente conectado à alimentação fora do lar. Entender esse perfil ajuda o empresário a perceber que o desafio não está em perder clientes, mas em ajustar a proposta de valor para continuar fazendo sentido para eles”, ressalta Molinari.
Além disso, os especialistas destacam que, ainda que seja uma mudança significativa para o setor, empreendedores devem ter clareza de sobre quem é o seu público e se ele se enquadra no perfil de novos hábitos de consumo por canetas emagrecedoras. De acordo com os especialistas, em um momento inicial, os principais impactados serão estabelecimentos voltados à classe A. “Esse perfil coincide diretamente com: frequentadores de restaurantes premium, casual dining, bares sofisticados, cafeterias especiais e hotéis; e consumidores com tíquete médio mais elevado e maior rentabilidade para o setor”, diz Molinari.
No Brasil, a Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel) ainda não estima os impactos do GLP-1 para o setor. Entretanto, Galante ressalta que dados dos Estados Unidos já mostram impacto mensurável do uso desses medicamentos nos hábitos alimentares e nos gastos com comida. Um estudo conduzido pela Cornell University indica que lares com usuários de GLP-1 reduziram, em até seis meses após o início do tratamento, em média 5,3% os gastos com supermercado, chegando a mais de 8% entre famílias de maior renda.
O mesmo estudo aponta queda de aproximadamente 8% nos gastos com restaurantes de serviço rápido (fast food, coffee shops e similares) e reduções ainda mais fortes em categorias indulgentes, como snacks e doces (em torno de 10%). “Essas evidências ajudam a dimensionar que o efeito não é apenas clínico, mas comportamental e econômico, com potencial de alterar padrões de porcionamento, mix de consumo e frequência em restaurantes. Mas o efeito será especialmente impactante à medida que o acesso aos medicamentos se ampliar”, conclui Galante.
