Por que o Brasil se tornou o maior exportador de soja e milho?

O “boom” do agro: por que o Brasil se tornou o maior exportador de soja e milho do mundo?

Ascensão do país mexe na geopolítica global e põe fogo na guerra comercial EUA-China.

 

Por Luciano Teixeira

O Brasil ultrapassou os Estados Unidos e se tornou o maior exportador global de milho na safra 2022/2023, que encerrou em 31 de agosto. Os dados são do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) e do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) do Brasil. As exportações de milho representam um alimento fundamental para rebanhos em todo o mundo.

Agora em 2023, o Brasil responde por 32% das exportações globais do grão, com 56 milhões de toneladas. Os Estados Unidos representam 23% do total, com pouco mais de 41 milhões de toneladas. Os dois países são responsáveis por mais da metade do volume global (177,5 milhões de toneladas).

Diversos fatores explicam a ascensão do Brasil como líder nas exportações desse item. O país colheu uma safra notável, e a China, um dos principais compradores de milho dos EUA, está ampliando suas fontes de suprimento de grãos. Enquanto isso, nos Estados Unidos, a produção de milho diminuiu devido a condições climáticas adversas e ao aumento dos custos, com uma parcela crescente sendo direcionada para a fabricação de biocombustíveis, farelo e óleos vegetais.

Uma eventual conversão de áreas de pastagens para a lavoura de milho e mesmo a valorização desse grão podem acabar impactando no preço da proteína animal no mercado interno e na inflação.

“A China consolida-se ainda mais como a principal parceira comercial do Brasil e importadora das nossas commodities agrícolas, aumentando a dependência do nosso país às políticas econômicas daquela nação asiática e nossa exposição aos seus humores”, analisa Frederico Favacho, sócio de agronegócios do Santos Neto Advogados.

Posição sólida

Ainda na safra 2022/2023, o Brasil registrou uma colheita de mais de 150 milhões de toneladas de soja, de acordo com o levantamento realizado pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). Esse número solidifica a posição do país como líder global na produção do grão, superando tanto os Estados Unidos quanto a Argentina.

O setor desempenha uma função essencial na estabilidade da balança comercial do Brasil, suprindo as necessidades de vários países com produtos de alta qualidade e sustentáveis.

No primeiro semestre de 2023, o agro registrou um superávit de US$ 74,07 bilhões, crescimento de 4,2% em comparação com o mesmo período de 2022. As exportações, por sua vez, atingiram a cifra de US$ 82,33 bilhões, ao passo que as importações totalizaram US$ 8,25 bilhões, representando um aumento de 3,9% e 1,6%, respectivamente, em relação ao ano anterior.

O mercado chinês é o principal destino para as exportações brasileiras, absorvendo significativa parte da produção nacional.

“Todo o esforço em tropicalizar esta cultura permitiu ao Brasil deixar de ser importador do grão, na década de 1970, para se tornar o maior produtor e exportador de soja no mundo. Isso tudo respaldado em ciência e inovação”, explica o chefe-geral da Embrapa Soja, Alexandre Nepomuceno.

Um estudo da Embrapa Soja mostra que a cultura do grão foi a que mais cresceu no território brasileiro ao longo das últimas cinco décadas. Entre os anos de 1973 e 2023, o cultivo registrou aumento superior a 1000%, enquanto a área de plantio cresceu em torno de 400%, demonstrando uma notável escalada na produtividade.

Esse fenômeno é atribuído, em grande parte, segundo os especialistas do mundo agro, ao avanço da ciência e da tecnologia no campo, possibilitando que os agricultores adotem as mais avançadas técnicas na produção agrícola. Consequentemente, o país tem conseguido produzir quantidades significativamente maiores em áreas cada vez menores, demonstrando um alto grau de eficiência no processo.

Atualmente, a soja é cultivada em 20 estados e no Distrito Federal, com destaque para os principais estados produtores, que incluem Mato Grosso, Rio Grande do Sul, Paraná e Goiás. A maior parcela dessa produção é destinada à exportação, com a Ásia, notadamente a China, e a Europa, juntamente com outras regiões do mundo, figurando como os principais destinos do principal produto de exportação brasileiro da atualidade.

Além de liderar nas exportações de milho, o Brasil está se preparando para assumir a liderança nas exportações de farelo de soja, superando a Argentina, que atualmente ocupa o primeiro lugar. Essa mudança no cenário é resultado de uma redução na produção argentina devido a uma severa seca na região. Vale mencionar que o Brasil já foi o principal fornecedor mundial de farelo de soja na safra 1997/98, conforme informações do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada da Universidade de São Paulo (Cepea/USP).

De acordo com as projeções da USDA para a safra 2022/2023, o Brasil deve exportar cerca de 21,5 milhões de toneladas de farelo de soja, enquanto a Argentina exportará aproximadamente 21,2 milhões de toneladas, contribuindo para um total global de 66,478 milhões de toneladas de farelo de soja exportado por todos os países.

“Nos últimos anos, o país solidificou sua posição como uma das principais potências exportadoras de commodities agrícolas do planeta. Esse feito é atribuído a uma confluência de fatores, notadamente a extensão de terras aráveis, grandes latifúndios, condições climáticas favoráveis, tecnologias agrícolas de ponta e uma demanda crescente no cenário internacional por produtos alimentícios”, avalia Arthur Longo Ferreira, sócio da área de mercado de capitais do Henneberg, Ferreira e Linard Advogados.

Para os advogados especializados em agronegócio, o novo recorde de produção de grãos e o aumento das exportações têm garantido boas margens para o produtor, ainda que os preços das commodities tenham caído recentemente. Da mesma forma, a valorização cambial do real diminui os custos com os insumos importados, ajudando ainda mais a equação final favorável da chamada “porteira para dentro”.

“Nesse cenário, a abertura das exportações de milho para a China foi, sem dúvida, um grande impulsionador do resultado do setor porque aumentou sensivelmente o mercado para o milho brasileiro e valorizou o grão internamente”, diz Frederico Favacho.

Mudanças na geopolítica mundial e desafios ambientais

A ascensão do Brasil como relevante fornecedor de commodities agrícolas implica diretamente a geopolítica internacional, principalmente nas relações com a China, principal parceira comercial do Brasil, algo que tem o potencial de influenciar substancialmente as relações diplomáticas e econômicas entre os dois países.

Outra questão relevante é a competição com os EUA no mercado agrícola, algo que pode desencadear tensões comerciais e estratégicas, com reflexos globais. Além disso, à medida que o Brasil se firma como um fornecedor vital de alimentos globais, sua influência cresce no cenário internacional, o que pode impactar significativamente negociações comerciais e diplomáticas. Com isso, o país poderá enfrentar desafios na Organização Mundial do Comércio (OMC) em questões relacionadas ao comércio e à regulamentação agrícola.

Outra discussão importante é a infraestrutura, que precisa de grandes investimentos para garantir a eficaz distribuição das commodities agrícolas aos mercados globais. Um exemplo importante é a Ferrogrão, que promete interligar Centro-Oeste ao Norte. A obra é há anos considerada pelo setor como necessária para comportar o crescimento da produção.

Mas o projeto apresenta impasses jurídico-ambientais significativos, porque passa, por exemplo, pelo Parque Nacional do Jamanxin, uma unidade indígena de conservação de proteção integral. Os processos de aprovação, inclusive, encontram-se judicializados no Supremo Tribunal Federal (STF).

“É importante que sejam pensados e executads, com a celeridade que o assunto impõe, outros projetos de infraestrutura e logística para garantir a possibilidade de crescimento do agronegócio nacional, sem que oportunidades no exterior sejam desperdiçadas por déficit logístico e/ou infraestrutural”, afirma Nelson Tonon, sócio do escritório Farenzena & Franco Advocacia Ambiental.

Questões relacionadas à precariedade das estradas podem representar entraves significativos. De acordo com a Confederação Nacional dos Transportes (CNT), 66% das estradas do país estão em condições regular, ruim ou péssima. Além disso, as alterações climáticas constituem um fator crítico que pode impactar a produção agrícola, exigindo adaptações e a adoção de tecnologias resistentes ao clima.

A relevância das questões regulatórias

Para os especialistas, a efetiva aplicação da legislação ambiental é fundamental para conter o desmatamento ilegal e assegurar a conservação das florestas e dos recursos naturais.

“No Brasil, temos uma legislação ambiental bastante restritiva e isso não deve mudar, tanto para garantir saúde e qualidade de vida à população, quanto para não prejudicar a imagem do país do exterior. De todo modo, se a legislação ficar ainda mais restrita do que é hoje, poderá haver sim um gargalo a prejudicar indevidamente o agronegócio”, analisa Nelson Tonon.

A regulação, para o advogado, deve ainda garantir a saúde das plantas e dos animais e atender os padrões internacionais para a exportação de produtos agrícolas, tornando as regulamentações correspondentes fundamentais.

Um avanço que permitiu recordes de exportação de grãos foi a promulgação da Lei dos Portos em 2013 (Lei 12.815/2013) que possibilitou investimentos privados em estruturas que visam baratear e aumentar capacidade de escoamento da produção de grãos, como é o caso dos terminais portuários privados e das estações de transbordo de cargas.

Os investimentos nessa área na última década possibilitaram, por exemplo, que a maior parte da produção atual de grãos venha sendo escoada e exportada por meio de terminais localizados na região Norte, utilizando-se de hidrovias da bacia do Rio Amazonas.

“Esse é um claro exemplo do resultado positivo obtido por meio de nova legislação que visou o destravamento da burocracia estatal e o incentivo ao investimento privado”, explica Vamilson da Costasócio do Costa Tavares Paes Advogados.

A manutenção de padrões de qualidade e a capacidade de rastrear a origem dos produtos são essenciais para a reputação das exportações brasileiras. Uma questão essencial hoje para o agro é fortalecer e expandir acordos comerciais vantajosos, a fim de facilitar o acesso a mercados globais.

 

Fonte: LexLatin


Posts relecionados

Logo R7
Shows de Réveillon na cidade de SP são suspeitos de irregularidades

Vera Chemim aponta que caso seja constatado um ato administrativo irregular, pode ser...

Fale conosco

Endereço
Rua Wisard, 23 – Vila Madalena
São Paulo/SP
Contatos

(11) 3093 2021
(11) 974 013 478