Desigualdade de gênero no setor das criptomoedas

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Tecnologia, finanças e desigualdade de gênero no setor das criptomoedas

Inclusão das mulheres no mundo das criptomoedas, por intermédio da educação financeira, gera maior independência

A utilização das criptomoedas é assunto constante no mundo financeiro, tanto como investimento quanto como meio de pagamento. Pesquisa recente realizada pela Fiserv (2022), líder global em tecnologia financeira e pagamentos, demonstra que as criptomoedas foram indicadas como possível meio de pagamento por 30% das pessoas entrevistadas. Já como forma de investimento, as criptomoedas têm suas movimentações acompanhadas por todo o mundo, mantendo a atenção constante dos investidores.

Apesar da evolução do setor de criptomoedas como um todo, a desigualdade de gênero também nessa área é marcante. De acordo com o relatório Global Gender Gap Report de 2021, elaborado pelo Fórum Econômico Mundial, a lacuna entre homens e mulheres – considerando os indicadores relativos à saúde e sobrevivência, participação econômica e oportunidades, empoderamento político e nível educacional — ainda pode demorar 135,6 anos para ser preenchida. Portanto, em setores com tanta disparidade como o das criptomoedas, pode levar ainda mais tempo.

Como explica Angela Walch, especialista em criptomoedas da University College London, em entrevista concedida à BBC, essa lacuna está em todo o setor das criptomoedas, não apenas na figura das mulheres como investidoras, mas como desenvolvedoras de software, economistas, empresárias etc.

Esse diagnóstico condiz com a constatação presente no relatório Global Gender Gap Report, o qual ressalta que há um longo percurso para atingir a paridade de gênero quando analisada a situação com relação aos empregos que serão essenciais futuramente. Afinal, apenas dois dos oito grupos de empregos emergentes têm paridade de gênero e muitos mostram grave sub-representação de mulheres. Entre as funções emergentes com lacuna mais significativa, aparecem as de vendas e de desenvolvimento de produtos, bem como as que apoiam o desenvolvimento de tecnologias emergentes, como cloud computing, engenharia, dados e inteligência artificial.

No mesmo sentido, o relatório The Costs of Exclusion: Economic Consequences of the Digital Gender Gap (2021), publicado pela Web Foundation, identifica que cerca de um terço dos profissionais de Tecnologia da Informação e Comunicação (TIC) em todo o mundo são mulheres, com ainda menos profissionais do gênero feminino ocupando cargos seniores ou de gestão. O documento ainda destaca tal setor como um dos piores no que diz respeito à paridade de gênero.

Entre os motivos para tamanha disparidade estão os níveis educacionais e as profissões em si. Afinal, como pontuado pelo relatório, este não é um setor construído por ou para mulheres. Quanto à consequência dessa disparidade de gênero, sublinha-se que a falta de diversidade impacta no resultado econômico. O relatório Why diversity matters (2015), publicado pelo McKinsey & Company, destaca que ambientes com equipes mais diversas, tanto quanto ao gênero como com relação à raça e etnia, são mais propensos a terem retorno financeiro acima das médias do setor em âmbito nacional.

O relatório frisa que espaços mais diversos são mais capazes de melhorar o atendimento ao cliente, a satisfação dos funcionários e garantir melhores decisões. Tudo isso leva a um ciclo virtuoso de retornos, sugerindo também que outros tipos de diversidade – por exemplo, idade, orientação sexual e experiência (esta considerada como mentalidade global e fluência cultural) – podem trazer mais vantagens competitivas.

Logicamente, a inserção das mulheres no setor das criptomoedas auxiliaria o segmento como um todo, mas também merece destaque por auxiliar na independência financeira feminina. O Relatório Global sobre Mulheres e Criptomoedas (2021), publicado no The Defiant e idealizado pelas pesquisadoras Marina Spindler e Paulina Rodriguez, destaca que as mulheres, em média, atribuem nota 7+, numa escala de 1 a 10, quando indagadas se consideram que houve melhora em sua alfabetização financeira e independência com a utilização das criptomoedas. Aqui, merece destaque o papel da educação financeira, já que, para entrarem no mundo dos investimentos, o conhecimento específico da área de finanças é indispensável.

Como visto, a falta de espaço para as mulheres na área de tecnologia impacta sua presença no setor das criptomoedas. Esse afastamento é prejudicial, pois a inclusão das mulheres na ampla cadeia de emprego relacionada a esse tipo de ativo gera resultados positivos em diversas frentes, indo além da lucratividade, resultando em empresas mais bem sucedidas de forma geral. Além disso, a inclusão das mulheres no mundo das criptomoedas, por intermédio da educação financeira, possibilita maior independência com relação às suas finanças, tornando-as mais seguras e confiantes para tomarem as decisões que respeitam de fatos seus interesses.

CAROLINE LOPES PLACCA – Advogada, consultora de relações governamentais do Instituto de Estudos Estratégicos de Tecnologia e Ciclo de Numerário (ITCN), professora da Universidade do Estado do Mato Grosso, doutoranda e mestra em Direito Político e Econômico pela Universidade Presbiteriana Mackenzie (UPM)

Fonte: Jota


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